Sobre o Terrorismo Mudar Nosso Modo de Vida

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Em sua resposta ao ataque terrorista em Manchester (Maio de 2017), o Primeiro-Ministro da Austrália faz a seguinte declaração:

“We will not be cowed by terrorists. We will not be intimidated by them. We will not change our way of life” (Não seremos acuados pelos terroristas. Nós não seremos por eles intimidados. Nós não mudaremos o nosso modo de vida).

Diversos líderes ao redor do mundo têm o mesmo discurso. Parece a coisa certa a se dizer, mas no fundo é uma mentira. É claro que a maneira como conduzimos nossa vida muda; violência de qualquer tipo impacta o nosso modo de vida.

Desde 2014 a Austrália investiu cerca de AU$ 1.500.000.000 (um bilhão e meio de dólares australianos – cerca de quatro bilhões de reais) nas agências nacionais de combate ao terrorismo. Somente na Polícia Federal a estimativa é de um novo investimento de AU$320.000.000 (trezentos e vinte milhões de dólares australianos) até o final desse ano (2017).

É claro que tudo isso altera o nosso jeito de viver.

Mas acredito que a foto abaixo ilustra da maneira mais simples possível a mudança no cotidiano. Tirei essa foto na última semana chegando ao escritório. Esse é o café palco do Sydney Siege que comentei aqui. Basta ver as colunas de concreto cercando a praça visando impedir novos ataques de carros e caminhões, como os acontecidos na Alemanha esse ano, por exemplo; os pontos turísticos da cidade são hoje todos dominados por tais placas e outros tipos de barreiras físicas.

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Sobre Morar Fora e (não) Poder Opinar

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Várias foram as vezes em que, por morar fora, disseram-me que não poderia opinar sobre o que ocorria no Brasil. Situações como a mostrada no tweet abaixo – embora acontecida com outra pessoa – são comuns também comigo:

É como se seu conhecimento do país no qual morou por décadas simplesmente desaparece ao emigrar; como se trinta anos de experiências vividas em um certo local deixassem de ter validade por agora exercer sua profissão em outro continente; como se sua relação com seus familiares simplesmente cessasse de um momento para outro; como se as informações sobre o Brasil deixasse de chegar à você pelo fato de estar distante do local onde nasceu.

O contrário também parece ocorrer, já que muito valor se dá à opiniões e estudos de pessoas que passam algum tempo no Brasil e escrevem sobre situações não vividas por eles. Parecem acreditar que a simples presença física em um certo território traz conhecimento sobre a história daquele país e que, portanto, suas posições não podem ser questionadas. Poderia citar vários exemplo aqui.

Tudo isso é um absurdo sem tamanho.

Distanciar-se de seu país natal traz, sem dúvidas, certa independência ao observá-lo – e isso é bom. Ao libertar-se de alguns de seus problemas temos condição de compará-lo com “verdades gerais” – regras, políticas, leis, comportamentos, etc. que fazem outros locais prosperarem – que poderiam ser aplicadas para resolver nossos problemas no Brasil.

Não é coincidência a obra de diversos filósofos – pessoas que buscam verdades gerais e as contrastam com a realidade – ser produzida quando estão fora de sua terra natal, justamente por estarem fora dela. John Locke produziu parte sua obra na França; Descartes na Holanda.

Obviamente que o fato de estar fora do Brasil, por si só, não traz automaticamente uma nova visão sobre nosso país: é preciso querer usar as novas informações adquiridas em seu novo país de residência para entender o Brasil. É o que tento fazer aqui muitas vezes ao comparar dados, pesquisas e notícias australianas com minha experiência vivida no Brasil.

Querer continuar participando da discussão pública no Brasil não é, de maneira alguma, a regra entre os brasileiros que moram no exterior. Basta observar o índice de abstenção nas eleições para presidente de 2014 no consulado de Sydney (quase 80%). Mas isso não significa, de forma alguma, que as opiniões expressadas por quem continua participando deva ser ignorada; devem sim ser interpretadas pelo que elas são: uma visão diferente, formada por novas experiências e conhecimentos, de quem efetivamente viveu a realidade de que fala e de que ainda mantém um relacionamento próximo.