Sobre a questão dos Refugiados (III)

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Para quem não acompanha o assunto pode parecer estranho, mas não existe uma definição clara e global do que terrorismo signifique. Apesar da existência de uma definição dicionarizada do termo (o Oxford dictionary define terrorismo como: o uso não-autorizado de violência e intimidação para fins políticos), o professor Alex Schmid enumera quatro razões que explicam a dificuldade em definir terrorismo:

  • O fato de as noções políticas, legais, sociais e populares sempre divergirem sobre o termo.
  • O fato de, ao definir-se terrorismo, legitimar-se ou criminalizar-se certos grupos.
  • O fato de o terrorismo manifestar-se em diversas formas.
  • E o fato de, mesmo as definições dicionarizadas, terem mudado muito ao longo de dois séculos.

A falta de uma definição clara permite então que classifique-se certos acontecimentos como terrorismo (ou não) dependendo de tecnicalidades e vontades políticas. Acontece, inclusive, de classificar-se um ato como terrorismo por quase um ano e, depois de um período de investigações, classificá-lo como não terrorismo. Foi o que aconteceu no primeiro caso que quero comentar:

Sydney Siege

Em dezembro de 2014, um refugiado iraniano de 5o anos invadiu um café no centro de Sydney e tomou como reféns oito pessoas, incluindo uma brasileira. Logo do começo da crise foi hasteada uma bandeira na janela, que acreditou-se ser do estado islâmico, mas que não era.

Durante todo o tempo não ficou clara a motivação do sequestro. O que se sabia era que ele já tinha algumas passagens pela polícia (por variados motivos), já havia sido preso anteriormente e também estava em uma lista de possíveis terroristas.

Passadas 16 horas, a polícia invadiu o café, mas dois inocentes (além do sequestrador) foram mortos (Mais detalhes sobre o ocorrido e consequentes repercussões aqui).

Durante muito tempo tratou-se do ocorrido como terrorismo. Esse artigo de agosto de 2015 diz que não há dúvidas sobre o fato de Monis ser um terrorista radicalizado. Mas já no aniversário de um ano do ocorrido, a prefeita de Sydney (Lord Mayor) opta por desqualificar o ocorrido como um ataque terrorista.

The Parramatta Shooting

Em outubro de 2015 um garoto de 15 anos, gritando “Allahu Akbar“, atira e mata um policial desarmado em Parramatta (um bairro ao oeste do centro de Sydney). Na sequência é morto por um dos policiais que faziam a guarda da delegacia.

Durante as investigações quatro pessoas são presas e, nesse caso, acusações de terrorismo são efetivamente feitas contra eles. Ainda como consequência do ocorrido uma mudança na lei foi feita para permitir que control orders fossem aplicadas para maiores de 14 anos.

O garoto era iraquiano, mas não um refugiado. Membros de sua família, no entanto, vieram como refugiados para a Austrália e estavam na lista da polícia como possíveis terroristas.

Apesar de o Grand Mufti da Austrália (autoridade muçulmana) negar veementemente o episódio como terrorismo, o incidente é oficialmente considerado um ataque terrorista não perpetrado por um refugiado. O que nos leva ao último caso que quero comentar:

A morte de Shadi Jabar

Shadi Jabar é a irmã do garoto de 15 anos do caso acima. Logo após o incidente ela foge para a Síria e, no decorrer das investigações, descobre-se que ela é uma das principais recrutadora do estado islâmico.

Em um ataque aéreo norte-americano ela é morta juntamente como Neil Prakash, também um australiano radicalizado e combatente do estado islâmico e principal alvo do ataque.


No próximo e último post dessa série tento ligar as informações descritas nos posts IIe III e dar minha opinião de como deve ser a discussão pública a respeito de um tema tão complexo e quais as possíveis alternativas.

 

Sobre a questão dos Refugiados (II)

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Nesse segundo post da série comento se existe ou não fundamento para os comentários do ministro da imigração, Peter Dutton.

Minha base será o estudo “Settlement of the new Arrivals“, que foca primordialmente na chegada de refugiados à Austrália. É um estudo de 2011; não leva em conta portanto o aumento no número de vistos para sírios e iraquianos, mas ainda assim 15,6% dos estudados são iraquianos.

  • Sobre a fluência em inglês

Um número ínfimo de refugiados falam inglês “muito bem” (very well) ao entrar na Austrália. Com o passar dos anos esse número aumenta de maneira muito tímida, como mostrado no gráfico. Passados 5 anos apenas 15,4% dos refugiados estudados passam a ter um nível muito bom de inglês. E 42% deles, passado o mesmo período de tempo, ainda não conseguem comunicar-se em inglês.

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O motivo dessa pouca melhora no nível de inglês não é explicado pelo relatório, mas é possível tirar algumas conclusões a partir de dados secundários:

  • 25% dos refugiados chegam com um nível de educação superior (curso técnico ou universitário). 18% chegam sem nenhum tipo de educação.
    • Podemos concluir daí que a falta de educação como um todo também torna o aprendizado de um novo idioma uma tarefa complicada.
  • Pessoas sem nenhuma conexão anterior na Austrália, ou seja, pessoas que chegam sem nenhum familiar ou amigo próximo já residindo no país, desenvolvem um nível melhor de inglês ao longo do tempo.
    • Esse é um dado interessante e nos faz concluir o óbvio: Se um imigrante/refugiado opta por não se inserir na cultura local como um todo, o aprendizado do idioma será prejudicado. Isso é comum também com familiares de residentes permanentes e cidadãos que pra cá migram.
  • Pessoas que mudam para regiões rurais desenvolvem um nível melhor de inglês ao longo do tempo.
    • Esse ponto é um pouco mais complicado de analisar e até certo ponto surpreendente em um primeiro momento. Mas o ponto é: mesmo as pessoas que chegam sem conexões anteriores no país tendem a permanecer nas regiões onde já existam pessoas que sejam i) da mesma etnia ii) e/ou que praticam a mesma religião iii) e/ou que tenham o mesmo idioma de origem. Isso não acontece nas regiões rurais; é uma característica das regiões metropolitanas.
  • Sobre o uso do assistencialismo

Assitencialismo é difícil de ser analisado, já que os dados referem-se ao estado de bem-estar-social como um todo, e não o que no Brasil entende-se por “bolsa”. Nesses dados constam benefícios/direitos/bolsas, tais como: seguro desemprego, auxílio creche, bolsa de estudo e até percentual de aposentadoria. De qualquer forma é possível perceber pelo gráfico abaixo que refugiados recebem um número muito maior de pagamentos quando comparados com Family (familiares de residentes e cidadãos) e Skilled (residentes permanentes que vêm pelo programa de profissionais qualificados). 85% das casas recebem algum tipo de auxílio.

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É importante verificar também que os pagamentos não diminuem substancialmente com o passar do tempo. A variação é de apenas 6,5%.

Um segundo dado crucial é como o desemprego diminui ao longo de 5 anos (no Chart 11). 39% dos refugiados estão empregados depois de 5 anos, enquanto 19% deles estão empregados em até 2 anos.

A faixa laranja (do Chart 11)que é difícil de ser compreendida, que são pessoas que não estão desempregadas (faixa amarela, que também considera as pessoas que não estão procurando emprego). O relatório dá como exemplo pessoas que estão estudando ou fazendo trabalho voluntário.

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  • Sobre a Austrália já receber o maior número de refugiados per capita no mundo

A Austrália é o país que mais recebe refugiados per capita pelo programa UNHCR resettlement da ONU. Resettlement nesse caso significa o país aceitar refugiados que já estejam em um dos campos da ONU pelo mundo. Faz parte do programa o país destino aceitar o fato deve prover condições para o refugiado estabelecer-se no país; e de que o refugiado não voltará ao seu país de origem.

No entanto, um percentual pequeno dos refugiados do mundo (em torno de 1% somente) reestabelecem-se em um novo país através desse programa. No geral o Líbano é o país com maior número de refugiados per capita com 1 para cada 4 nativos (A Austrália tem 1 para cada 687; O Brasil 1 para cada 27 mil; EUA 1 para cada 1,2 mil) e a Turquia é o país com maior número absoluto de refugiados com quase 3 milhões (Austrália tem 36 mil; Brasil 7 mil; EUA 268 mil).

Comentarei em meu (quarto e) último post da série essas diferenças em mais detalhes. Falarei também sobre alternativas (ou complementos) ao simples recebimento de um maior número de refugiados e o que pode ser feito para melhorar o programa existente, que pelos números acima não parece ter a eficácia que deveria, dado o volume investido pelo governo federal.

No post seguinte (o terceiro) falarei sobre a questão dos ataques terroristas perpetrados (ou não, segundo governo e imprensa) por refugiados na Austrália.

Sobre a questão dos Refugiados (I)

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Estamos em ano de eleição na Austrália e uma das questões mais pertinentes na discussão pública é – como não poderia deixar de ser – a questão dos refugiados.

Antes de mais nada é preciso separar alguns conceitos importantes, já que isso causa discrepâncias tanto qualitativas como quantitativas nas análises. São coisas distintas:

  • O imigrante legal, que divide-se em três grandes grupos para fins de análise (como feita pelo departamento de imigração; comentarei mais pra frente):
    • Imigrantes de residência permanente: São os imigrantes que vêm com intuito de aqui permanecer, como eu por exemplo, e que já chegam ao país com esse direito.
    • Familiares de residentes ou cidadãos: Residentes permanentes e cidadãos podem trazer familiares de relação direta para a Austrália, desde que alguns critérios sejam atingidos.
    • Imigrantes de residência temporária: Aqui existe uma gama enorme de perfis: estudantes, profissionais que vêm apenas com direito de trabalho patrocinado por uma empresa, estudantes que aqui se formam, etc. Imigrantes de residência temporária podem eventualmente passar para a categoria de residente permanente.
  • O imigrante ilegal, que normalmente são pessoas que vêm com visto de turismo – ou alguma forma de residência temporária – e por aqui ficam. Como a Austrália não tem fronteira terrestre, os imigrantes ilegais encontram-se normalmente nessa categoria, apesar dos muitos casos de pessoas que chegam de barco (buscando asilo ou não).
  • O refugiado (visto humanitário), que também cobre uma diversidade grande de perfis e não somente pessoas vindas de países em situação de guerra ou guerra civil. Temos, por exemplo, um conhecido nosso , que trabalhava como psicólogo em penitenciárias na Colômbia; ele conseguiu visto humanitário por correr perigo de vida em seu país.

Quis fazer essa distinção, já que é muito comum uma análise superficial do tema, tendo como resultado chavões do tipo:

  • Imigração é importante porque traz diversidade.
  • Somos uma nação de imigrantes. Todos temos familiares que vieram pra cá e fizeram a vida com muito trabalho e contribuíram para o país.
  • Somos uma nação rica e temos que ajudar o maior número de pessoas possível.

Tudo isso é fato, mas parece-me óbvio que os três perfis que mencionei acima contribuem (ou usufruem) de maneira distinta pra isso.

Focando então na questão dos refugiados em si.

A discussão acabou esquentando ainda mais semana passada quando o atual ministro da imigração, Peter Dutton, fez uma declaração polêmica baseada primordialmente nos seguintes pontos:

  • Os refugiados chegam com um nível de proficiência muito baixo em inglês, o que é esperado, mas que ao longo do tempo a proficiência não melhora de maneira alguma.
  • Os refugiados quase em sua totalidade entram no CentreLink (ele se refere à uma certa quantidade de bolsas e incentivos para quem chega com visto humanitário). E que passados cinco anos a maioria deles permanece vivendo somente do assistencialismo.
  • Que a Austrália já recebe o maior número de refugiados per capta do mundo (em torno de 13 mil por ano; e esse ano com um adicional de 12 mil somente da Síria e Iraque). E que não há dinheiro para que se aumente esse número.
    • Uma das promessas de campanha dos partidos de oposição é o aumento do número de refugiados aceitos por ano (“Partido Verde” (Greens) quer o aumento para 50 mil refugiados por ano; e do “Partido Trabalhista” (Australian Labor Party) um aumento para 27 mil).
    • O partido “Liberal”, atualmente no poder, quer manter o atual número de 13 mil.
  • Que os refugiados tomariam empregos dos australianos.

Grande parte da imprensa exigiu um pedido de desculpas, que não veio.

As respostas de ambos os partidos de oposição vieram na seguinte linha:

  • O ministro se mostrou um racista.
  • Os dados em que ele se baseou são incorretos.

Uma outra preocupação é com a possibilidade de ataques terroristas na Austrália. Argumenta-se que nunca houve ataques terroristas no país e que, portanto, o processo de análise dos refugiados quando de sua entrada, é suficientemente bom.


No segundo post dessa série comentarei sobre os dados apresentados pelo ministro Dutton. É fundamental compreender os dados para que se possa ter uma discussão pública de qualidade.

Já no terceiro comentarei sobre o fato de nunca ter havido ataques terroristas perpetrados por refugiados na Austrália. Falarei sobre três casos nos últimos dois anos que, para mim, caem na definição de terrorismo.

E no último post falarei sobre as diferenças da questão dos refugiados na Europa, Estados Unidos e Austrália.

 

 

Uniforme Olímpico

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Essa semana foi revelado o novo uniforme que o pessoal deve usar no Rio.

  

Multiculturalismo na Austrália

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Fazia tempo que queria escrever sobre esse assunto. Agora que viramos cidadãos e com as várias discussões ocorrendo mundo afora (refugiados sírios, eleição americana, etc.) encontrei um bom momento. O post é meio longo (e talvez chato para alguns), mas é importante esclarecer alguns conceitos para depois contextualizar Brasil e Austrália. Vamos lá:

São duas as principais características das democracias modernas, pelo menos para efeito de análise do multi-culturalismo. Características essas mais evidentes em países desenvolvidos, mas não somente neles:

  • Separação entre Igreja e Estado; fato esse que se iniciou com as reformas da Igreja no século XVI – principalmente Luterana, Calvinista e Anabatista. A Anglicana foi um pouco diferente – e se consolidou nos períodos seguintes.
  • Garantia da liberdade individual (de escolha, expressão, etc.), consolidada no pós Iluminismo.

Sem a Igreja para impor uma “lei moral” e com toda a liberdade advinda do Iluminismo é necessário que as pessoas decidam permanecer unidas através de alguns laços comuns, costumes, tradições, idioma, entre outras características que, combinadas, pode-se chamar de cultura. Essa unidade cultural, como diria Edmund Burke, é “pré-condição para uma ordem política”. Nessa democracia moderna então, as instituições se solidificam, as leis são aplicadas (por isso disse anteriormente que são características mais evidentes em países desenvolvidos) e percebe-se que tais características de união são muito mais importantes que as características de segregação entre as pessoas, tais como religião e raça.

O próximo passo natural para essa sociedade é abrir-se para a imigração, para que ela possa compartilhar tais valores com os potenciais imigrantes. E esse é o ponto fundamental: o imigrante deve vir com a intenção de integrar-se ao novo ambiente, de ser capaz de desfrutar de muitos de seus valores e obedecer suas leis. Claro que essa integração pode ser uma via de duas mãos, na qual valores e características da cultura do imigrante podem ser absorvidas, desde que não impostas. Nesse ambiente, agora multi-cultural, é fundamental atentar para dois detalhes:

  • A sociedade na qual o imigrante chega não deve ter, de forma alguma, a obrigação de fazer o imigrante “se sentir em casa”, sem que exija dele um esforço de adaptação.
  • Não se deve esperar que o imigrante partilhe da mesma fé, tipos de relações familiares, etc., mas é fundamental que dele se exija conhecimento básico do idioma do país, assim como obediência às suas leis e à seus processos cívicos.

Com relação ao primeiro ponto é muito comum caracterizar-se como preconceito (racismo) qualquer exigência de adaptação, o que é evidentemente um erro grave de interpretação. Qualquer tentativa de se manter todas as características culturais do imigrante, sejam elas quais forem, acaba criando um ambiente de segregação e tensão. É comum ouvir esse tipo de opinião aqui na Austrália, mas o caso mais interessante é o de um diretor de uma escola inglesa, Ray Honeyford, que já no início dos anos 80 notou esse problema em sua escola, onde havia uma exigência de “diversidade” e nenhum traço cultural de seus muitos alunos paquistaneses podia ser criticado. Ele previu que esse tipo de comportamento levaria à um estado de tensão entre os alunos ingleses e paquistaneses –  o que acabou ocorrendo. Ele tentou implantar políticas de adaptação em sua escola e acabou sendo não só demitido, mas difamado por toda opinião pública, que fazia o trocadilho Raycist com seu nome (uma mistura de Ray com racista). Pra quem tiver interesse em mais detalhes sobre esse caso, sugiro a leitura desse artigo (em inglês).

O segundo ponto deveria ser uma obviedade: exercer sua fé e costumes em ambiente privado e no ambiente civil seguir as leis do país no qual decidiu viver. Mas são muitos os casos, principalmente entre a comunidade muçulmana, de atitudes que, apesar de saberem que sao contra a lei da Austrália, decidem tomar. Exemplos como esse, onde uma garota engravidou aos 12 anos depois de um casamento muçulmano (somente a cerimônia, já que civilmente isso é proibido), ou esse pai libanês que arranjou o casamento da filha, também de 12 anos – mesmo depois de ser informado pelas autoridades da ilegalidade do ato – são bastante comuns.

A integração de uma comunidade islâmica em um ambiente judaico-cristão é sempre um tema complexo. Essa adaptação é complicada pela prórpia natureza do islamismo em si, cujas regras de conduta são baseadas não somente no que diz o Corão, mas também no ahadith, que pelo pouco que conheço, é um conjunto enorme de ditos e condutas vividas por Maomé e seguido pelos muçulmanos. Além disso, o islã tem o conceito da ummah, que é basicamente a sociedade muçulmana em caráter global – uma sociedade onde todos os crentes possuem opiniões e condutas similares, quando não idênticas – e que parece ter precedência sobre qualquer costume ou lei vigente no país onde decidam morar. É isso que torna a integração dessa comunidade extremamente difícil em países ocidentais.

Claro que essa integração não é impossível, mas está longe de ser simples. Trabalhei com diversos muçulmanos e hoje gerencio um no meu time e é muito interessante presenciar algumas coisas.

Para nós brasileiros a facilidade é muito maior e a maioria de já vem com a intenção de se integrar o máximo possível, aprender o idioma o quanto antes, entender as diferenças e delas se aproveitar. Tudo isso, no entanto, não impede que um certo número (aparentemente cada vez maior) de brasileiros opte por não respeitar as leis daqui. Mas essa discussão fica para um outro momento.

O processo para a cidadania Australiana estressa sempre a necessidade de integração dos imigrantes. Em todos os momentos do processo nota-se o orgulho da Austráia em ser o que é e nos valores que tem. É um movimento que me parece contrário à “cultura de repúdio”, como diz Roger Scruton, hoje presente nos EUA e  Inglaterra. Essa cultura de repúdio diz ele, é o menosprezo aos próprios valores sobre os quais as duas nações cresceram, assim como a necessidade de supervalorizar e aceitar todos os detalhes da cultura do imigrante sob o medo de parecer racista e intolerante. Não foi esse o sentimento que eu, particularmente, tive durante o processo de cidadania.

Cidadania

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O dia em que deixamos de ser Brasileiros morando na Austrália e passamos a ser Australianos nascidos no Brasil. Ou quase isso 

 

10 Anos Fora de São Paulo (2) – SP cansa!

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Quero contar neste segundo post da séries alguns casos, que certamente não são únicos, mas que certamente foram algumas das razões que me fizeram querer sair da cidade. Os temas principais, claro, trânsito e violência.

Eu e minha família fomos assaltados tantas vezes que já tinha perdido as contas – se não em engano só de carros roubados tinham sido 5 nas mais diversas ‘modalidades’, sendo algumas traumáticas, as infelizmente não incomuns entre as pessoas que conheço e outros que hoje lêem esse texto. Outros casos de stress no trânsito quase afetaram minha saúde.

Caso 1 – Roubo de nosso carro:

Noite de sábado deixando a Tati em casa somos fechados por um Astra preto; sou obrigado a jogar o meu carro (também um Astra) na calçada. Quatro pessoas armadas saem do carro, nos rendem, levam nosso carro e documentos. Péssima experiência, mas somente o primeiro de vários bizarros naquela noite.

Chegando na delegacia pra fazer o boletim de ocorrência somos impedidos de entrar. Temos que esperar outros policiais chegarem para nos revistar (?!) – existe uma espécie de “pré cela” que ficamos até ser revistados – segundo o policial que nos interrogou é procedimento “padrão” para delegacias com carceiragem devido ao receio’ de estarmos lá para ‘resgatar’ presos. Passada essa etapa digo que fomos assaltados e que levaram nosso carro e documentos:

– O carro tem seguro? Pergunta o policial.

– Tem sim. (E disse o nome da seguradora)

– Quais os dados da apólice?

– Não tenho como saber isso agora. Como disse, roubaram nossos documentos também.

– Assim o senhor não está colaborando com a gente. Preciso falar com a seguradora. O senhor sabe como é. (?)

– Não sei, mas anota meu CPF e nome completo que eles devem achar os dados

Mais de uma hora depois o policial volta dizendo que faria a ocorrência – como se a possibilidade da ocorrência estivesse atrelada ao fato de o carro ser segurado. E era mais ou menos isso. Ele depois me disse que eles recebem 10% do valor do carro da seguradora caso encontrem o veículo roubado.

Saí da delegacia somente pela manhã, com o BO com a assinatura do delegado falsificada pelo escrivão, já que ele tinha medo do que poderia acontecer como ele caso acordasse o delegado que estava dormindo na sala ao lado.

Caso 2: Roubo do carro de minha mãe e hospital de minha avó

Uma segunda vez tive que sair ‘resgatar’ minha avó no meio da rua após ela e minha mãe terem o carro roubado num semáforo perto da casa dela (da minha avó). Além do nosso carro levaram as bolsas de minha mãe e também da minha avó (com seu dinheiro e documentação obviamente) e ela ficou assustada, com taquicardia e dificuldades de respiração. Além disso assaltaram também o mendigo cego que pedia dinheiro no mesmo farol – pra tornar a cena ainda mais bizarra.

Pego minha avó, já com a pressão muito baixa e quase inconsciente, e a levo para o hospital de nossa confiança. Chego na emergência do hospital, ajudo minha avó a sair do caro e se sentar rapidamente … e a seguinte conversa com a atendente ocorre:

– Carteirinha do convênio e identidade da senhora.

– Ela acabou de ser assaltada e, obviamente, levaram seus documentos e dinheiro!

– Bom, não tenho como dar a entrada então.

– Pelo amor de Deus, vai atendendo minha avó enquanto vou na casa dela ver se tem algum outro documento por lá.

– Não posso senhor.

Não sei quantas pessoas fraudam entrada em hospitais particulares dessa maneira pra fazerem um protocolo como esse. Não sei também se esse protocolo mudou, já que isso ocorreu há mais de uma década atrás. Mas só conseguimos ser atendidos, por muita sorte, porque um dos médicos do hospital reconheceu minha avó (que esteve lá na semana anterior com problemas de pressão) e também lembrou seu nome – acho que ficou gravado na memória do médico por ser um nome libanês muito incomum. Ele pediu então pra atendente proceder com o cadastro e ela foi rapidamente atendida. No final não precisei mostrar documento algum.

Caso 3: Pagar para não ter o carro roubado.

Um de meus amigos de escola havia começado a se meter em algumas atividades criminais, infelizmente. Cometeu algum ‘erro’ e foi assassinado. Vou em sua missa de sétimo dia – em uma região de periferia razoavelmente perigosa por assim dizer. Estaciono no que parecer ser um estacionamento da própria igreja – assim que abro a porta do carro já vejo um grupo de pessoas com facas vindo na minha direção. Antecipo-me e vou na direção deles fazendo cara de perdido e tentando pedir alguma informação (não sei o que me deu na cabeça):

– Por favor, por favor … Vocês conhecem o (falei o nome de meu amigo que foi assassinado)? Sabem se é aqui que está sendo a missa dele?

– Conhecemos sim. (um deles respondeu assustado).

– Obrigado. Vocês poderiam, por favor, cuidar do meu carro? Não me parece muito confiável o lugar aqui. Deixo 50 conto com vocês.

– Beleza …

Caso 4: Bronca e multa do CET

Não me lembro bem o nome das ruas da região, mas estudava na USP à noite e trabalhava na Eusébio Matoso perto da marginal pinheiros. Da avenida do Jóquei tem uma pequena entrada para a Eusébio Matoso – perto justamente de uma saída da própria Eusébio para a própria marginal. Por conta disso é (pelo menos era) sempre uma confusão e um trânsito absurdo. Enfim, nesse dia em especial não havia vazão nenhuma da avenida para a Eusébio por mais de uma hora (!). E havia um fiscal do CET justamente lá sem fazer nada – Em minha opinião ele não deveria permitir que o cruzamento estivesse sempre bloqueado. Ele teria a função de dar vazão também para o outro lado e ele nada fazia por lá.

Uma hora depois – já havia perdido minha aula nessa altura – os motoristas ao meu redor começam a passar para o outro lado da avenida e começam a dirigir na contra-mão! O caos estava instalado e uma pequena batida já havia acontecido. Desço do carro e vou em direção ao fiscal reclamar (não muito educadamente) e explicar o caos que havia começado na avenida. O cara perdeu o controle e começou a me xingar sem parar.

Resultado: Fiquei mais 40 minutos parado e ainda tomei uma multa. Aparentemente não posso “abandonar” o veículo em “movimento” em uma via.

Caso 5: A gota d’água.

Quando não se consegue mais agir racionalmente devido ao ambiente em que se está – quer dizer que já passou a hora de dele sair.

Um desses momentos foi eu fugir de mais um assalto num semáforo. Um cara armado parou do meu lado e resolvi arrancar o carro – algo que, racionalmente, sempre havia dito que não o faria.

Num segundo momento na mesma semana, sou novamente abordado por dois garotos com canivetes. Olho no retrovisor do carro e não há ninguém atrás de mim. Engato à ré e arranco. Vejo os garotos no meio da rua e arranco na direção deles. Por sorte não os atropelo. Arrependeria-me pra sempre se tivesse ‘conseguido’. Já não podia ficar mais lá. Senti claramente que tinha de ir embora.

Fim de julho de 2005 recebo uma boa proposta de trabalho e me mudo para Porto Alegre.

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