Nesse segundo post da série comento se existe ou não fundamento para os comentários do ministro da imigração, Peter Dutton.

Minha base será o estudo “Settlement of the new Arrivals“, que foca primordialmente na chegada de refugiados à Austrália. É um estudo de 2011; não leva em conta portanto o aumento no número de vistos para sírios e iraquianos, mas ainda assim 15,6% dos estudados são iraquianos.

  • Sobre a fluência em inglês

Um número ínfimo de refugiados falam inglês “muito bem” (very well) ao entrar na Austrália. Com o passar dos anos esse número aumenta de maneira muito tímida, como mostrado no gráfico. Passados 5 anos apenas 15,4% dos refugiados estudados passam a ter um nível muito bom de inglês. E 42% deles, passado o mesmo período de tempo, ainda não conseguem comunicar-se em inglês.

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O motivo dessa pouca melhora no nível de inglês não é explicado pelo relatório, mas é possível tirar algumas conclusões a partir de dados secundários:

  • 25% dos refugiados chegam com um nível de educação superior (curso técnico ou universitário). 18% chegam sem nenhum tipo de educação.
    • Podemos concluir daí que a falta de educação como um todo também torna o aprendizado de um novo idioma uma tarefa complicada.
  • Pessoas sem nenhuma conexão anterior na Austrália, ou seja, pessoas que chegam sem nenhum familiar ou amigo próximo já residindo no país, desenvolvem um nível melhor de inglês ao longo do tempo.
    • Esse é um dado interessante e nos faz concluir o óbvio: Se um imigrante/refugiado opta por não se inserir na cultura local como um todo, o aprendizado do idioma será prejudicado. Isso é comum também com familiares de residentes permanentes e cidadãos que pra cá migram.
  • Pessoas que mudam para regiões rurais desenvolvem um nível melhor de inglês ao longo do tempo.
    • Esse ponto é um pouco mais complicado de analisar e até certo ponto surpreendente em um primeiro momento. Mas o ponto é: mesmo as pessoas que chegam sem conexões anteriores no país tendem a permanecer nas regiões onde já existam pessoas que sejam i) da mesma etnia ii) e/ou que praticam a mesma religião iii) e/ou que tenham o mesmo idioma de origem. Isso não acontece nas regiões rurais; é uma característica das regiões metropolitanas.
  • Sobre o uso do assistencialismo

Assitencialismo é difícil de ser analisado, já que os dados referem-se ao estado de bem-estar-social como um todo, e não o que no Brasil entende-se por “bolsa”. Nesses dados constam benefícios/direitos/bolsas, tais como: seguro desemprego, auxílio creche, bolsa de estudo e até percentual de aposentadoria. De qualquer forma é possível perceber pelo gráfico abaixo que refugiados recebem um número muito maior de pagamentos quando comparados com Family (familiares de residentes e cidadãos) e Skilled (residentes permanentes que vêm pelo programa de profissionais qualificados). 85% das casas recebem algum tipo de auxílio.

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É importante verificar também que os pagamentos não diminuem substancialmente com o passar do tempo. A variação é de apenas 6,5%.

Um segundo dado crucial é como o desemprego diminui ao longo de 5 anos (no Chart 11). 39% dos refugiados estão empregados depois de 5 anos, enquanto 19% deles estão empregados em até 2 anos.

A faixa laranja (do Chart 11)que é difícil de ser compreendida, que são pessoas que não estão desempregadas (faixa amarela, que também considera as pessoas que não estão procurando emprego). O relatório dá como exemplo pessoas que estão estudando ou fazendo trabalho voluntário.

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  • Sobre a Austrália já receber o maior número de refugiados per capita no mundo

A Austrália é o país que mais recebe refugiados per capita pelo programa UNHCR resettlement da ONU. Resettlement nesse caso significa o país aceitar refugiados que já estejam em um dos campos da ONU pelo mundo. Faz parte do programa o país destino aceitar o fato deve prover condições para o refugiado estabelecer-se no país; e de que o refugiado não voltará ao seu país de origem.

No entanto, um percentual pequeno dos refugiados do mundo (em torno de 1% somente) reestabelecem-se em um novo país através desse programa. No geral o Líbano é o país com maior número de refugiados per capita com 1 para cada 4 nativos (A Austrália tem 1 para cada 687; O Brasil 1 para cada 27 mil; EUA 1 para cada 1,2 mil) e a Turquia é o país com maior número absoluto de refugiados com quase 3 milhões (Austrália tem 36 mil; Brasil 7 mil; EUA 268 mil).

Comentarei em meu (quarto e) último post da série essas diferenças em mais detalhes. Falarei também sobre alternativas (ou complementos) ao simples recebimento de um maior número de refugiados e o que pode ser feito para melhorar o programa existente, que pelos números acima não parece ter a eficácia que deveria, dado o volume investido pelo governo federal.

No post seguinte (o terceiro) falarei sobre a questão dos ataques terroristas perpetrados (ou não, segundo governo e imprensa) por refugiados na Austrália.

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