Várias foram as vezes em que, por morar fora, disseram-me que não poderia opinar sobre o que ocorria no Brasil. Situações como a mostrada no tweet abaixo – embora acontecida com outra pessoa – são comuns também comigo:

É como se seu conhecimento do país no qual morou por décadas simplesmente desaparece ao emigrar; como se trinta anos de experiências vividas em um certo local deixassem de ter validade por agora exercer sua profissão em outro continente; como se sua relação com seus familiares simplesmente cessasse de um momento para outro; como se as informações sobre o Brasil deixasse de chegar à você pelo fato de estar distante do local onde nasceu.

O contrário também parece ocorrer, já que muito valor se dá à opiniões e estudos de pessoas que passam algum tempo no Brasil e escrevem sobre situações não vividas por eles. Parecem acreditar que a simples presença física em um certo território traz conhecimento sobre a história daquele país e que, portanto, suas posições não podem ser questionadas. Poderia citar vários exemplo aqui.

Tudo isso é um absurdo sem tamanho.

Distanciar-se de seu país natal traz, sem dúvidas, certa independência ao observá-lo – e isso é bom. Ao libertar-se de alguns de seus problemas temos condição de compará-lo com “verdades gerais” – regras, políticas, leis, comportamentos, etc. que fazem outros locais prosperarem – que poderiam ser aplicadas para resolver nossos problemas no Brasil.

Não é coincidência a obra de diversos filósofos – pessoas que buscam verdades gerais e as contrastam com a realidade – ser produzida quando estão fora de sua terra natal, justamente por estarem fora dela. John Locke produziu parte sua obra na França; Descartes na Holanda.

Obviamente que o fato de estar fora do Brasil, por si só, não traz automaticamente uma nova visão sobre nosso país: é preciso querer usar as novas informações adquiridas em seu novo país de residência para entender o Brasil. É o que tento fazer aqui muitas vezes ao comparar dados, pesquisas e notícias australianas com minha experiência vivida no Brasil.

Querer continuar participando da discussão pública no Brasil não é, de maneira alguma, a regra entre os brasileiros que moram no exterior. Basta observar o índice de abstenção nas eleições para presidente de 2014 no consulado de Sydney (quase 80%). Mas isso não significa, de forma alguma, que as opiniões expressadas por quem continua participando deva ser ignorada; devem sim ser interpretadas pelo que elas são: uma visão diferente, formada por novas experiências e conhecimentos, de quem efetivamente viveu a realidade de que fala e de que ainda mantém um relacionamento próximo.

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