É de fundamental importância discutir o quê, efetivamente, a Austrália deseja atingir com seus programas de imigração. Focando somente na questão dos refugiados, três perguntas são centrais para uma discussão frutífera:

  • Com que intuito o país emite vistos humanitários?
  • Os objetivos, tanto do programa como da sociedade em geral, estão sendo atingidos?
  • Quais as alternativas para uma solução completa?

Pra responder a primeira pergunta é necessário compreender a situação geo-política das diversas nações das quais os refugiados vêm. Mesmo na questão Síria / Iraque, que é a mais evidente e divulgada, o número de pessoas que entende o problema é mínimo (1). Ninguém que participe das discussões públicas atuais (na TV, jornais ou mesmo blogs independentes) consegue resumir corretamente o que levou à atual crise dos refugiados e quais suas implicações mais básicas.

Sem o conhecimento do que realmente ocorre, não se consegue discutir também o papel da Austrália no problema (ou qualquer outro país) e muito menos estratégias de médio e longo prazo. A Austrália tem, por exemplo, uma participação militar importante no Oriente Médio que também é pouquíssimo discutida. Somente “discute-se” questões de caráter militar quando um de nossos soldados é morto em combate. Serve unicamente como argumento emocional para a retirada das tropas da região.

Por que a atual migração em massa? Por que a Austrália atua militarmente na região? Por que a coligação militar Austrália-EUA-Reino Unido existe? Por que priorizar (ou não) uma certa região para receber refugiados? Sem esse conhecimento histórico-político é praticamente impossível entender quando e como vistos humanitários devem ser emitidos.

Já para responder a segunda pergunta, temos que partir da premissa que a discussão se baseará em dados reais e o debate público será fomentado. O segundo post dessa série traz alguns desses dados; negá-los sem apresentar outras fontes não ajudará em nada. Um debate sério só trará resultados se as partes envolvidas forem livres para expressar suas opiniões, questionar e sanar suas dúvidas. E para avaliar se os objetivos do programa estão sendo atingidos é necessário primeiro responder a questão inicial.

 

A terceira questão é certamente a mais difícil de todas e minha intenção não é propor uma solução para o fim do terrorismo, até porque obviamente não sei a resposta. Mas um problema tão complexo quanto esse não pode ser atacado de uma única maneira; aceitar mais ou menos refugiados no país é solução – é apenas uma parte dela. Acredito que pelo menos os seguintes pontos devem ser também pensados em conjunto:

  • A atuação militar nas regiões afetadas. Isso vem acontecendo e creio ser correto; o que se questiona aqui é a efetividade, foco e resultados das ações. (2)
  • Emissão de vistos humanitários temporários. Essa é uma questão polêmica na Austrália (3), mas é preciso também pensar na possibilidade de se manter pessoas no país somente até o motivo de seu asilo político não existir mais.
  • Proteger e rearranjar as pessoas em seus próprios países. (4)

E claro, se você se interessa e realmente se preocupa com a questão, estude o problema (5) e participe da solução. Existem diversas instituições privadas na Austrália e nos EUA que auxiliam os refugiados recém chegados com aulas de inglês, cursos técnicos, etc. Para a minoria cristã de refugiados, algumas igrejas e instituições católicas aqui na Austrália aceitam voluntários para ajudá-los na integração; também prestam assistência psicológica e aulas de inglês. Trabalho voluntário para ajudar refugiados muçulmanos especificamente é um pouco mais complicado, já que as organizações pedem que o voluntário tenha fluência no idioma origem do refugiado, além de uma afinidade cultural e religiosa.


(1) O melhor resumo que li até hoje a respeito da formação do Estado Islâmico, guerra civil síria e como os demais países envolvem-se na região está no exemplar de dezembro de 2014 da revista espanhola Historia y Vida, disponível para compra online. Indico fortemente a leitura.

(2) O que interessa para a Austrália é a maneira como os EUA atuam na região. Agora na gestão Trump é importante entender o que pensa Sebastian Gorka, principal membro do security advisory staff do presidente. Recomendo a leitura de seu livro Defeating Jihad; não acredito existir tradução em português ainda.

(3) Um pouco do histórico dos TPVs na Wikipédia.

(4) É o que argumenta e explica Luma Simms no The Federalist.

(5) Existe um curso online no Coursera chamado Terrorism and Counterterrorism da Universidade de Leiden. A universidade é holandesa, mas o curso é inglês.

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