Fazia tempo que queria escrever sobre esse assunto. Agora que viramos cidadãos e com as várias discussões ocorrendo mundo afora (refugiados sírios, eleição americana, etc.) encontrei um bom momento. O post é meio longo (e talvez chato para alguns), mas é importante esclarecer alguns conceitos para depois contextualizar Brasil e Austrália. Vamos lá:

São duas as principais características das democracias modernas, pelo menos para efeito de análise do multi-culturalismo. Características essas mais evidentes em países desenvolvidos, mas não somente neles:

  • Separação entre Igreja e Estado; fato esse que se iniciou com as reformas da Igreja no século XVI – principalmente Luterana, Calvinista e Anabatista. A Anglicana foi um pouco diferente – e se consolidou nos períodos seguintes.
  • Garantia da liberdade individual (de escolha, expressão, etc.), consolidada no pós Iluminismo.

Sem a Igreja para impor uma “lei moral” e com toda a liberdade advinda do Iluminismo é necessário que as pessoas decidam permanecer unidas através de alguns laços comuns, costumes, tradições, idioma, entre outras características que, combinadas, pode-se chamar de cultura. Essa unidade cultural, como diria Edmund Burke, é “pré-condição para uma ordem política”. Nessa democracia moderna então, as instituições se solidificam, as leis são aplicadas (por isso disse anteriormente que são características mais evidentes em países desenvolvidos) e percebe-se que tais características de união são muito mais importantes que as características de segregação entre as pessoas, tais como religião e raça.

O próximo passo natural para essa sociedade é abrir-se para a imigração, para que ela possa compartilhar tais valores com os potenciais imigrantes. E esse é o ponto fundamental: o imigrante deve vir com a intenção de integrar-se ao novo ambiente, de ser capaz de desfrutar de muitos de seus valores e obedecer suas leis. Claro que essa integração pode ser uma via de duas mãos, na qual valores e características da cultura do imigrante podem ser absorvidas, desde que não impostas. Nesse ambiente, agora multi-cultural, é fundamental atentar para dois detalhes:

  • A sociedade na qual o imigrante chega não deve ter, de forma alguma, a obrigação de fazer o imigrante “se sentir em casa”, sem que exija dele um esforço de adaptação.
  • Não se deve esperar que o imigrante partilhe da mesma fé, tipos de relações familiares, etc., mas é fundamental que dele se exija conhecimento básico do idioma do país, assim como obediência às suas leis e à seus processos cívicos.

Com relação ao primeiro ponto é muito comum caracterizar-se como preconceito (racismo) qualquer exigência de adaptação, o que é evidentemente um erro grave de interpretação. Qualquer tentativa de se manter todas as características culturais do imigrante, sejam elas quais forem, acaba criando um ambiente de segregação e tensão. É comum ouvir esse tipo de opinião aqui na Austrália, mas o caso mais interessante é o de um diretor de uma escola inglesa, Ray Honeyford, que já no início dos anos 80 notou esse problema em sua escola, onde havia uma exigência de “diversidade” e nenhum traço cultural de seus muitos alunos paquistaneses podia ser criticado. Ele previu que esse tipo de comportamento levaria à um estado de tensão entre os alunos ingleses e paquistaneses –  o que acabou ocorrendo. Ele tentou implantar políticas de adaptação em sua escola e acabou sendo não só demitido, mas difamado por toda opinião pública, que fazia o trocadilho Raycist com seu nome (uma mistura de Ray com racista). Pra quem tiver interesse em mais detalhes sobre esse caso, sugiro a leitura desse artigo (em inglês).

O segundo ponto deveria ser uma obviedade: exercer sua fé e costumes em ambiente privado e no ambiente civil seguir as leis do país no qual decidiu viver. Mas são muitos os casos, principalmente entre a comunidade muçulmana, de atitudes que, apesar de saberem que sao contra a lei da Austrália, decidem tomar. Exemplos como esse, onde uma garota engravidou aos 12 anos depois de um casamento muçulmano (somente a cerimônia, já que civilmente isso é proibido), ou esse pai libanês que arranjou o casamento da filha, também de 12 anos – mesmo depois de ser informado pelas autoridades da ilegalidade do ato – são bastante comuns.

A integração de uma comunidade islâmica em um ambiente judaico-cristão é sempre um tema complexo. Essa adaptação é complicada pela prórpia natureza do islamismo em si, cujas regras de conduta são baseadas não somente no que diz o Corão, mas também no ahadith, que pelo pouco que conheço, é um conjunto enorme de ditos e condutas vividas por Maomé e seguido pelos muçulmanos. Além disso, o islã tem o conceito da ummah, que é basicamente a sociedade muçulmana em caráter global – uma sociedade onde todos os crentes possuem opiniões e condutas similares, quando não idênticas – e que parece ter precedência sobre qualquer costume ou lei vigente no país onde decidam morar. É isso que torna a integração dessa comunidade extremamente difícil em países ocidentais.

Claro que essa integração não é impossível, mas está longe de ser simples. Trabalhei com diversos muçulmanos e hoje gerencio um no meu time e é muito interessante presenciar algumas coisas.

Para nós brasileiros a facilidade é muito maior e a maioria de já vem com a intenção de se integrar o máximo possível, aprender o idioma o quanto antes, entender as diferenças e delas se aproveitar. Tudo isso, no entanto, não impede que um certo número (aparentemente cada vez maior) de brasileiros opte por não respeitar as leis daqui. Mas essa discussão fica para um outro momento.

O processo para a cidadania Australiana estressa sempre a necessidade de integração dos imigrantes. Em todos os momentos do processo nota-se o orgulho da Austráia em ser o que é e nos valores que tem. É um movimento que me parece contrário à “cultura de repúdio”, como diz Roger Scruton, hoje presente nos EUA e  Inglaterra. Essa cultura de repúdio diz ele, é o menosprezo aos próprios valores sobre os quais as duas nações cresceram, assim como a necessidade de supervalorizar e aceitar todos os detalhes da cultura do imigrante sob o medo de parecer racista e intolerante. Não foi esse o sentimento que eu, particularmente, tive durante o processo de cidadania.

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