Quero contar neste segundo post da séries alguns casos, que certamente não são únicos, mas que certamente foram algumas das razões que me fizeram querer sair da cidade. Os temas principais, claro, trânsito e violência.

Eu e minha família fomos assaltados tantas vezes que já tinha perdido as contas – se não em engano só de carros roubados tinham sido 5 nas mais diversas ‘modalidades’, sendo algumas traumáticas, as infelizmente não incomuns entre as pessoas que conheço e outros que hoje lêem esse texto. Outros casos de stress no trânsito quase afetaram minha saúde.

Caso 1 – Roubo de nosso carro:

Noite de sábado deixando a Tati em casa somos fechados por um Astra preto; sou obrigado a jogar o meu carro (também um Astra) na calçada. Quatro pessoas armadas saem do carro, nos rendem, levam nosso carro e documentos. Péssima experiência, mas somente o primeiro de vários bizarros naquela noite.

Chegando na delegacia pra fazer o boletim de ocorrência somos impedidos de entrar. Temos que esperar outros policiais chegarem para nos revistar (?!) – existe uma espécie de “pré cela” que ficamos até ser revistados – segundo o policial que nos interrogou é procedimento “padrão” para delegacias com carceiragem devido ao receio’ de estarmos lá para ‘resgatar’ presos. Passada essa etapa digo que fomos assaltados e que levaram nosso carro e documentos:

– O carro tem seguro? Pergunta o policial.

– Tem sim. (E disse o nome da seguradora)

– Quais os dados da apólice?

– Não tenho como saber isso agora. Como disse, roubaram nossos documentos também.

– Assim o senhor não está colaborando com a gente. Preciso falar com a seguradora. O senhor sabe como é. (?)

– Não sei, mas anota meu CPF e nome completo que eles devem achar os dados

Mais de uma hora depois o policial volta dizendo que faria a ocorrência – como se a possibilidade da ocorrência estivesse atrelada ao fato de o carro ser segurado. E era mais ou menos isso. Ele depois me disse que eles recebem 10% do valor do carro da seguradora caso encontrem o veículo roubado.

Saí da delegacia somente pela manhã, com o BO com a assinatura do delegado falsificada pelo escrivão, já que ele tinha medo do que poderia acontecer como ele caso acordasse o delegado que estava dormindo na sala ao lado.

Caso 2: Roubo do carro de minha mãe e hospital de minha avó

Uma segunda vez tive que sair ‘resgatar’ minha avó no meio da rua após ela e minha mãe terem o carro roubado num semáforo perto da casa dela (da minha avó). Além do nosso carro levaram as bolsas de minha mãe e também da minha avó (com seu dinheiro e documentação obviamente) e ela ficou assustada, com taquicardia e dificuldades de respiração. Além disso assaltaram também o mendigo cego que pedia dinheiro no mesmo farol – pra tornar a cena ainda mais bizarra.

Pego minha avó, já com a pressão muito baixa e quase inconsciente, e a levo para o hospital de nossa confiança. Chego na emergência do hospital, ajudo minha avó a sair do caro e se sentar rapidamente … e a seguinte conversa com a atendente ocorre:

– Carteirinha do convênio e identidade da senhora.

– Ela acabou de ser assaltada e, obviamente, levaram seus documentos e dinheiro!

– Bom, não tenho como dar a entrada então.

– Pelo amor de Deus, vai atendendo minha avó enquanto vou na casa dela ver se tem algum outro documento por lá.

– Não posso senhor.

Não sei quantas pessoas fraudam entrada em hospitais particulares dessa maneira pra fazerem um protocolo como esse. Não sei também se esse protocolo mudou, já que isso ocorreu há mais de uma década atrás. Mas só conseguimos ser atendidos, por muita sorte, porque um dos médicos do hospital reconheceu minha avó (que esteve lá na semana anterior com problemas de pressão) e também lembrou seu nome – acho que ficou gravado na memória do médico por ser um nome libanês muito incomum. Ele pediu então pra atendente proceder com o cadastro e ela foi rapidamente atendida. No final não precisei mostrar documento algum.

Caso 3: Pagar para não ter o carro roubado.

Um de meus amigos de escola havia começado a se meter em algumas atividades criminais, infelizmente. Cometeu algum ‘erro’ e foi assassinado. Vou em sua missa de sétimo dia – em uma região de periferia razoavelmente perigosa por assim dizer. Estaciono no que parecer ser um estacionamento da própria igreja – assim que abro a porta do carro já vejo um grupo de pessoas com facas vindo na minha direção. Antecipo-me e vou na direção deles fazendo cara de perdido e tentando pedir alguma informação (não sei o que me deu na cabeça):

– Por favor, por favor … Vocês conhecem o (falei o nome de meu amigo que foi assassinado)? Sabem se é aqui que está sendo a missa dele?

– Conhecemos sim. (um deles respondeu assustado).

– Obrigado. Vocês poderiam, por favor, cuidar do meu carro? Não me parece muito confiável o lugar aqui. Deixo 50 conto com vocês.

– Beleza …

Caso 4: Bronca e multa do CET

Não me lembro bem o nome das ruas da região, mas estudava na USP à noite e trabalhava na Eusébio Matoso perto da marginal pinheiros. Da avenida do Jóquei tem uma pequena entrada para a Eusébio Matoso – perto justamente de uma saída da própria Eusébio para a própria marginal. Por conta disso é (pelo menos era) sempre uma confusão e um trânsito absurdo. Enfim, nesse dia em especial não havia vazão nenhuma da avenida para a Eusébio por mais de uma hora (!). E havia um fiscal do CET justamente lá sem fazer nada – Em minha opinião ele não deveria permitir que o cruzamento estivesse sempre bloqueado. Ele teria a função de dar vazão também para o outro lado e ele nada fazia por lá.

Uma hora depois – já havia perdido minha aula nessa altura – os motoristas ao meu redor começam a passar para o outro lado da avenida e começam a dirigir na contra-mão! O caos estava instalado e uma pequena batida já havia acontecido. Desço do carro e vou em direção ao fiscal reclamar (não muito educadamente) e explicar o caos que havia começado na avenida. O cara perdeu o controle e começou a me xingar sem parar.

Resultado: Fiquei mais 40 minutos parado e ainda tomei uma multa. Aparentemente não posso “abandonar” o veículo em “movimento” em uma via.

Caso 5: A gota d’água.

Quando não se consegue mais agir racionalmente devido ao ambiente em que se está – quer dizer que já passou a hora de dele sair.

Um desses momentos foi eu fugir de mais um assalto num semáforo. Um cara armado parou do meu lado e resolvi arrancar o carro – algo que, racionalmente, sempre havia dito que não o faria.

Num segundo momento na mesma semana, sou novamente abordado por dois garotos com canivetes. Olho no retrovisor do carro e não há ninguém atrás de mim. Engato à ré e arranco. Vejo os garotos no meio da rua e arranco na direção deles. Por sorte não os atropelo. Arrependeria-me pra sempre se tivesse ‘conseguido’. Já não podia ficar mais lá. Senti claramente que tinha de ir embora.

Fim de julho de 2005 recebo uma boa proposta de trabalho e me mudo para Porto Alegre.

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