Uma das coisas que sempre me causou inveja viajando pela América Latina é a facilidade com que ocorre o intercâmbio cultural entre os países de língua hispânica, justamente por conta do idioma comum. Não é raro poder assitir programas de televisão ou ouvir músicas nas rádios que sejam de outros países que compartilham a mesma língua. Esse fenômeno é visível desde a literatura até programas populares como o Chaves, que tive oportunidade de assistir em televisão aberta, sem dublagens ou legendas (pode parecer óbvio, mas voltarei à esse ponto mais pra frente) em pelo menos três países diferentes.

Facilidade de intercâmbio ainda maior se encontra entre os países de língua inglesa.

O mundo acontece em inglês – sem dúvidas.

Basta ligar a televisão aqui na Austrália (falando somente de TV aberta) e se deparar com uma quantidade enorme de seriados, documentários, telejornais, etc. dos mais diversos países de língua inglesa, tais como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, India, Escócia, Africa do Sul, Irlanda e Nova Zelândia principalmente.

Mesmo entre os profissionais de jornalismo tal intercâmbio é facilmente encontrado. Desde apresentadores de televisão britânicos até comentaristas esportivos americanos – O americano Jim Courier é o principal comentarista durante o Australian Open de tennis.

Já com o nosso português isso não acontece, pelo menos em minha percepção. Dificilmente se tem acesso à qualquer produção portuguesa na televisão ou mesmo nas livrarias (que não sejam os já mundialmente consagrados autores). Além da literatura portuguesa que temos contato na escola, os únicos poucos contatos que lembro de ter tido com o português não-brasileiro são aparições pontuais de atores portugueses na televisão aberta.

E a única vez que assisti um documentário luso-brasileiro em TV aberta, sobre a imigração portuguesa para o Rio Grande do Sul, acredite se quiser, sempre que um português falava aparecia a legenda em “português”, como se fosse uma língua totalmente imcompreensível que o entrevistado estava falando. Achei isso um absurdo total e absoluto.

“Duas grandes nações separadas somente pelo idioma” foi uma piada que ouvi o guia turístico inglês fazendo com um casal americano em Londres uma vez. No caso de Brasil e Portugal (ou qualquer outro país de língua portuguesa) isso parece ser um fato e não uma anedota.

Aqui na Austrália um fenômeno diferente parece acontecer conosco: somos todos vistos como um único grupo de “falantes de português”, o que é uma situação bem interessante e benéfica.

A comunidade portuguesa também é grande aqui em Sydney e a concentração é maior no bairro de Petersham. Por conta disso o número de brasileiros por lá também é grande. Os pontos mais conhecidos são os açougues e mini-mercados, onde se encontram lad0-a-lado tanto Sumol quanto Guaraná Antarctica; Cerveja Sagres e Skol; bacalhau português e picanha brasileira. Médicos, dentistas e psicólogos brasileiros também são mais facilmente encontrados em Petersham e são populares entre a comunidade lusa.

Uma festa anual acontece no bairro também (Food and Wine Fair – todo mês de março), com barracas de comidas portuguesas e brasileiras. Nessa festa de rua é muito comum encontrar o pessoal vestindo as camisetas das seleções brasileiras e portuguesas de futebol.

Além disso a SBS, que é uma das redes de comunicação públicas do país, oferece conteúdo em português, tanto em sua página na internet quanto nos canais de televisão. Nesse momento a gente começa a se familiarizar mais com a cultura dos outros países de língua portuguesa.

Ontem mesmo na página principal do site era possível encontrar uma chamada para a aprovação do orçamento anual do Timor Leste; notícias sobre a tentativa de isenção de visto para os brasileiros e notícias sobre os jogadores do Porto FC e do Sporting.

Na televisão pode-se assistir à um telejornal português todo final de semana. É sempre interessante ter acesso à uma mesma notícia com uma visão totalmente diferente, como é dada pelos jornalistas portugueses.

Filmes e lançamentos de livros também são ofertados de maneira conjunta para quem fala português. É mais fácil encontrar filmes portugueses em salas de cinemas em Sydney do que no Brasil. Eventualmente algum filme brasileiro também chega a ser exibido nos festivais – e atraem o público português. Dois anos atrás na exibição de “Tropa de Elite 2”, durante o Sydney Film Festival, foi possível testemunhar isso.

Foi somente aqui também que tomei conhecimento de autores moçambicanos, como Mia Couto e José Rodrigues dos Santos; portugueses como Valter Hugo Mãe e Mario de Carvalho. Com o advento dos livros eletrônicos (eBooks) o acesso à esses livros também é muito simples. Mesmo na Amazon americana é possível encontrar publicações eletrônicas em português desses autores. Na loja online da Bertrand de Lisboa é ainda mais fácil ter acesso à outras boas publicações.

Só espero que não achem que, assim como o documentário que mencionei acima, as publicações portuguesas e moçambicanas tenham que de alguma forma ser traduzida para o ‘nosso’ português para ser compreensível. Com a última reforma ortográfica a leitura desses textos ficou ainda mais natural para nós brasileiros. Além disso, as diferenças são sempre interessantes e bem-vindas.

E foi só aqui que acabei por decorar a lista de países onde se fala a nossa língua portuguesa. Tenho certeza que muito poucas pessoas no Brasil sabe essa lista de cabeça (sem checar na Wikipedia), mas aqui a gente tem que reponder essa pergunta com uma certa frequência e acaba memorizando.

Normalmente depois do “susto” ao saber que a língua oficial do Brasil é o português e não o espanhol, a próxima pergunta geralmente é: “Mas que outros países falam português?”

E pra quem não sabe a resposta: Brasil, Portugal, Timor Leste, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe – além disso é também idioma oficial em Macau e Guiné Equatorial, apesar de nesses últimos dois não ser efetivamente o idioma nacional. Com isso ainda se constata que Portugal é apenas o quarto país do mundo em número de “falantes de português”, já que as populações de Angola e Moçambique são maiores que a portuguesa.

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