Existe um grupo de discussão no Linkedin para brasileiros profissionais de TI na Austrália e, recentemente, um dos tópicos me interessou bastante, pois se aplicava justamente ao meu momento atual por aqui. O tópico era algo como “Vale a pena pagar 30 mil dólares por um mestrado na Austrália”. A resposta não é tão simples quanto parece e vou quebrá-la em 3 partes; a primeira argumentando pontos contra, a segunda a favor e no terceiro a minha opinião em particular.

Confesso que até hoje não entendi muito bem como funcionam as coisas por aqui com relação a ensino superior. Até onde eu entendo um curso universitário é bastante caro por aqui (pelo menos na visão do Australiano) e não existem faculdades gratuitas – Se alguém tiver alguma informação diferente, por favor, me corrija, mas pelos menos nas universidades mais conceituadas com certeza absoluta todos os cursos são pagos. O que cidadãos Australianos podem conseguir é uma espécie de financiamento do estudo para ser quitado ao longo de um tempo maior. Existe algo similar no Brasil também.

Por conta disso, existem muitos alunos que após o high school optam por um curso técnico (Certificate III ou IV), depois um diploma. E com isso conseguem equivalência em algumas disciplinas na universidade barateando um pouco o custo total. Para residentes e cidadãos esses cursos tem um preço muito baixo, sendo de fato uma taxa de administração somente – em torno de 500 dólares por semestre.

A verdade é que muitas das pessoas com as quais tive oportunidade de trabalhar aqui na Austrália não possuem formação universitária e as justificativas são várias, mas acredito que as principais sejam relacionadas à situação econômica do país. Em um país onde a desigualdade social é pequena, as diferenças salariais entre cargos de uma mesma profissão são pequenas. Na minha área de atuação a diferença salarial entre um analista de sistemas pleno (com cerca de 5 anos de experiência e sem necessariamente um curso superior) para um gerente de desenvolvimento ou mesmo de projetos fica em torno de 30 à 40%, mas para esse tipo de cargo as exigências em termos de formação e experiência são maiores. Se você olhar então somente por esse prisma, é fácil entender que a resposta para a pergunta “Por que você não fez faculdade / pós-graduação?” seja algo como: “Porque não vale a pena”.

No Brasil a diferença salarial entre esses cargos que eu mencionei, pelo menos nas empresas que trabalhei, gira em torno dos 300%, ou seja, um gerente de desenvolvimento ganha pelo menos o triplo de um analista pleno.

Aqui na Austrália, mesmo se você pegar profissões consideradas sub-empregos no Brasil, você consegue manter um nível razoável de vida e com um salário que não pode ser considerado pouco. Um barista (o cara que faz o café) de uma loja Starbucks aqui ganha 25 dólares por hora. Em uma conta bem por cima, isso daria em torno de 3,5 à 4 mil dólares por mês. Um analista de sistemas pleno ganha em torno de 6 à 7 mil e um gerente de projetos entre 8 à 10 mil. Se você considerar que o percentual de Imposto de Renda que incide no salário do gerente é maior que a do barista, a diferença salarial percentual líquida é ainda menor que a bruta.

O custo de vida em Sydney é muito, mas muito mais alto que no Brasil. Então não se deixe enganar simplesmente por esses números, convertendo os valores pra reais e achar que ganhar 6 mil reais pra servir café é o melhor negócio do mundo. Mas o ponto é: um curso de barista custa 300 dólares e dura um dia; uma faculdade dura em torno de 4 anos e vai custar em torno de 50 mil dólares talvez e uma pós-graduação vai te custar mais uns 30 mil dólares e tomar mais 2 anos da sua vida.

Baseado nisso então, pessoas que encaram a educação como apenas um investimento e/ou tem por objetivo levar uma vida mais tranquila, sem muito stress, tendo um emprego que “pague as contas” somente, vão responder “Não” para a questão título desse post. Isso acarreta em um certo custo social, já que mão-de-obra especializa vai ser sempre algo escasso no país – acredito ser um dos motivos de imigração qualificada ser uma das maiores portas de entrada de imigrantes nesse país. Algumas profissões são então exercidas por profissionais pouco qualificados na área ou por alguém que cobre muito caro pelo serviço – nenhum dos dois cenários me parece o ideal.

Na Parte 2 argumento pontos em favor do estudo por aqui.

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