Finalmente a segunda parte do post “Carteira de Motorista”. Dessa vez não foi preguiça em escrever um novo post e sim porque só agora consegui passar na prova prática e tenho alguma coisa digna de ser compartilhada!

Fiz a primeira prova prática no mês de Setembro. Sabia bem das muitas diferenças nas regras de trânsito por aqui e tudo mais e por isso resolvi fazer algumas (que se tornariam várias) aulas de direção. Adaptar-se a mão inglesa foi um pouco complicado, mas com certeza a dificuldade maior foi adaptar-me às regras necessárias para se dirigir por aqui, mesmo que seja só para passar no teste. Livrar-se de vícios como o de por a mão por dentro do volante, ou ficar com uma das mão sobre o câmbio o tempo todo, não são tão simples de se livrar – mas fazem você ser reprovado no exame.

Virar a cabeça para checar o chamado ponto-cego a cada curva, frear e olhar para os dois lados mesmo no sinal verde, estacionar o carro olhando somente para trás (sem ser pelo retrovisor) não cruzando uma mão sobre a outra no volante também são hábitos difíceis de se adquirir – mas também te reprovam no exame prático.

Apesar disso muitas coisas cobradas no exame fazem sentido e, pelo menos quando eu me habilitei no Brasil, não eram cobradas nos exames e nem ensinadas nas auto escolas. Coisas simples e importantes como: sempre checar no retrovisor a distância do carro de trás antes de frear no sinal amarelo, checar a distância do carro de trás antes de sinalizar mudança de faixa, dar  um tempo mínimo para se mudar de faixa (aqui é de 3 segundos), prioridade dos pedestres em diversas situações, etc. São coisas “básicas” que sempre reclamamos que os outros não fazem, mas que algumas vezes também nos esquecemos de fazer.

Voltando ao dia da minha primeira prova prática então. Dei azar de pegar um examinador que tem uma certa briga com a instrutora que me deu aulas (ela havia o processado alguns anos atrás por reprovar injustamente um aluno dela – e ganhou – culminando em uma suspensão desse examinador por algumas semanas). Soma-se à isso uma regra velada de que nenhum estrangeiro consegue passar na prova na primeira tentativa (sabe-se lá o motivo disso) e já dava pra prever o resultado: reprovação no exame prático.

A justificativa oficial do examinador foi que eu não reduzi a velocidade em 3 sinais verdes durante o exame, que durou 65 minutos (o padrão é de 45 minutos). Minha palavra contra a dele e nada podia ser feito.

A verdade é que o processo de habilitação aqui é longo e cansativo para o Australiano. Você passa o primeiro ano todo com uma carteira de aprendiz (“learner”) e tem que dirigir sempre acompanhado de um tutor (alguém que tenha uma licença “full”), além de andar com adesivos com a letra “L” visíveis no carro. Após esse período você deve passar por um período de 2 anos com uma carteira provisória – nesse ponto você já pode dirigir sozinho e troca-se a letra “L” pela “P” nos adesivos, mas ainda assim algumas regras são diferentes do habilitado “full”, tais como limite de velocidade e a proibição de consumo de álcool em qualquer nível. Somente depois desse período o Australiano é elegível a fazer o exame prático para a licença “full”.

Um estrangeiro habilitado em seu país de origem pode fazer diretamente esse teste e receber a “full licence”. Esse também é um dos motivos dos examinadores dificultarem a vida dos estrangeiros na prova prática.

Demorei um pouco para a segunda tentativa, até porque as aulas são caras (100 dólares por 1 hora e meia), assim como a prova em si (50 dólares da prova e mais 180 dólares para o instrutor te levar e buscar do local do exame).  Somente dois dias atrás fiz a minha segunda tentativa. Estava chovendo bastante no horário do teste e achei que isso poderia me prejudicar, mas foi o contrário. O trânsito na região ficou muito pesado por conta da chuva e acabei dirigindo bem menos do que o padrão para os 45 minutos. Quanto menos se anda menor a chance de cometer algum tipo de erro. Além disso era um examinador diferente, o que pelo menos me garantiria uma avaliação mais justa.

Nessa segunda tentativa sei que tive alguns erros que foram relevados pelo examinador. Percebi que passei do limite de velocidade em um trecho e em um dos momentos, com o carro estacionado, acabei acelerando antes de trocar de N pra D o câmbio automático (você pode optar por fazer a prova em carro automático ou mecânico – para o Australiano seguindo o fluxo normal de habilitação, fazer a prova em carro automático somente te dá direito de guiar carros com transmissão automática. Fazer a prova em carro com transmissão manual te dá direito de dirigir ambos – o mesmo não ocorre para o estrangeiro habilitado, ou seja, mesmo que você faça a prova com carro automático, você tem direito de dirigir carros manuais também).

Dessa vez acredito que tenha tido motivos para ser reprovado, mas não fui. Você não recebe o resultado na hora – você é levado de volta para dentro do RTA e o examinador termina de preencher e assinar sua ficha de avaliação. Somente depois disso ele te chama no balcão para te dar o resultado. Ouvir um “Congratulations” dele foi um alívio e até uma certa surpresa!

A verdade é que fiquei muito mais feliz essa semana ao receber minha carteira de motorista aos 32 anos de idade do que quando recebi minha primeira habilitação 15 anos atrás!

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